Apresentação

E ainda assim, ao olhar para trás,
Vejo da copa da mais distantes árvores,
Uma terra tão cintilante, amada e azul
Quanto qualquer Yeats considerou verdadeira.

Ray Bradbury – Dandelion Wine

Desde a infância, a tomada de consciência do mundo é um processo que cada um faz por etapas, nunca de uma vez só, num sopetão. O mundo não vem inteiro de uma vez e nem é inteiramente apresentado à pessoa, seus sentidos e peculiar capacidade de decodificação. É algo que acontece aos poucos.

O primeiro mundo da criança é bem o regaço (ou sua falta) materno e paterno. Depois, vêm as pequenas relações, o simbólico, a vida escolar, a vizinhança, a noção de um espaço social ampliado. Muito mais tarde o sentimento regional, nacional, global e seus dramas geopolíticos.

Os contos, historietas e fábulas aqui publicados são bem situados no limite de compreensão da infância que se limita ao pequeno mundo local, às relações da cidade – mas não da metrópole e suas dificuldades e violências. A cidade no limite da urbanização e suas expectativas modernizantes. O microcosmo de pessoas familiares e das descobertas quase primitivas do ser humano, suas pulsões afetivas e morais, além de certa noção de insuficiência que acompanha o amadurecimento.

Santa Bárbara nunca existiu nitidamente, mas é uma cidade do interior brasileiro. Do interior que é todo sertão e todo pampa e todo cerrado; onde o Brasil se percebe mais latino-americano do que um projeto mal havido e posto de lado pelo velho mundo europeu.

Eu também não vivi em Santa Bárbara, ninguém viveu, mas, de certa forma, todos vivemos. Santa Bárbara continua no interior, mas também mostra suas raízes nos bairros metropolitanos expondo um tempo de viver e outra noção de civilidade, uma para tantos superada ou, como disse em seu último livro o sociólogo Zygmunt Bauman, retrotópica.

Quando o tempo histórico não dá conta em responder às expectativas de uma comunidade, qualquer que seja ela ou o seu tamanho, é comum que as pessoas procurem recuperar a noção de um “tempo sem males” que tanto pode situar-se no passado quanto deslocar-se ao futuro utópico. A ficção científica é o estilo literário que visa imaginar o futuro e a literatura obsoletista parece ser aquela empenhada em resgatar o tempo idealizado da infância. Seja como for, ambas são terrenos do anacronismo, do desejo em afastar-se e diferenciar-se do presente, nem que seja como devaneio.

Acontece que o tempo presente não parece mesmo fazer uma boa ideia do futuro. Basta ver a profusão de conteúdo distópico que se oferece como entretenimento. Embora o gesto de olhar para o passado (já que voltar a ele é impossível) não possa sanar os impasses presentes e tampouco os futuros, esse é um deslocamento que qualquer pessoa pode fazer pela sua experiência e pela dos que a cercam, pois trata-se justamente de compartilhá-la e conhecê-la, não uma mera busca de consolo em placebos.

Mas isso não importa. Não importa tanto.

O que pode fazer o texto literário, afinal de contas, a não ser projetar-se para além do que se espera dele? Se o contemporâneo fosse suficiente, não haveria tanto interesse na história e nem no futuro. E buscar um tempo mais ameno e fraterno, quando isso constituir num crime (que seja, estético) será sinal de que nosso desgraçamento chegou realmente a um ponto sem retorno.

Pois a aproximação a esse ponto sem retorno ao que parece inevitável foi o que me fez “ir” à Santa Bárbara e contar coisas da infância, ou que já estão esquecidas, ou que dormem profundamente no que de melhor pode estar guardado de nossa experiência afetiva, ética e – por que não dizer? – política. Mas que não se pense que há traços biográficos literais por aqui, ou passadismo meu. O trabalho da ficção não é bem ocultar o autor, mas mostrar da sua visão de mundo e suas expectativas. Se o seu trabalho falar suficientemente bem, nada poderá satisfazê-lo mais.

Estes contos foram escritos durante o período de confinamento da pandemia do coronavírus, em 2020, salvo as fábulas anexadas – anteriores. Não é ainda um livro, mas pode vir a sê-lo. Mas não se trata de um projeto de um livro, apenas de uma iniciativa de publicação em aberto, sem prazo de acabar.

Minha Santa Bárbara é ilustrada com uma paisagem da cidade de Cubiro, na Venezuela, trabalho gentilmente cedido pelo pintor chileno Luis Ramirez – http://www.luiramirezart.com/