Compadres

Seu Venâncio dos Angicos não era louco, mas um dia endoideceu.

Primeiro ele salgou os canteiros de folhosas, depois decepou os tomateiros, além ainda arrancou batatas e cenouras e amputou os brotos de uva. E todo o restante das ervas de chá e até mesmo as de ornamento ele atorou na gadanha e na enxada, até virar tudo uma coisa só. Depois ateou fogo naquilo e sentou bem ao lado, até deixar-se incendiar junto às plantações que ele cavou sem a ajuda de ninguém num campinho emprestado por um compadre que um dia, de raiva das belezas que ele tinha, disse sem mais nem menos que ele lhe devia.

Devia o quê? Devia gratidão (mas ele tinha), devia a parte de comer do homem e seus filhos (que ele dava), devia ser menos avaro (ele não era), devia dever alguma coisa porque o outro embestou que ele devia.

Depois de tanto tempo de amizade, como um vizinho podia pensar isso do outro? Logo em Santa Bárbara, lugar que nem os passarinhos disputavam a água dos empoçados?

O seu Venâncio entristeceu-se. Murchou por dentro e lhe parecia loucura o viço das plantas se seu único valor verdadeiro fora empenhado nas dúvidas descabidas do seu amigo. Achou que não era bem a discrepância do seu espírito e dos seus cultivados. Numa loucura, decidiu acabar com tudo, com a razão do desarrazoado sofrimento. Assim voltava a ter o respeito dos outros e o seu amor próprio, mesmo zerado, poderia voltar a cultivar outra vez.

Mas o que parece ter acontecido foi ele ter visto o amigo observando-o de longe, quieto, impassível como um tronco de angico. Ele pegando fogo e o homem no seu pitar. Da visão não arredou mais pé e até aproximou-se mais, com as roupas chamuscadas incendiando a pele e ele duro, sem dar um grito, foi sumindo-se no fogaréu.

Quem me contou? Não a mãe, que ela nunca me diria o que foi da morte do meu pai, essa desgraça. Eu descobri sozinho. Juntei cacos de história de um e de outro até entender tudo.

A verdade é que o vizinho também endoidecera. Matar a fonte do seu sustento? Ele, um sem vontade de nada? Um descansado? Dois dias depois, sem saber o que fazer para cuidar do que não suportava ver o outro fazer tão bem, enfiou um cartucho contra o peito escondido num mato. Seu filho é o João Benedito. Estudou tudo que pode e logo se sumiu daqui. A mãe ficou sozinha na casa, sem outro destino.

Às vezes, vez por semana, eu vou até lá levar tomates, pães e ovos que a minha mãe lhe envia. Parece que nunca se falaram mais depois daquela estultice, mas ajudam-se como podem. Não é muito eu levar as coisas lá, mas, às vezes sento onde o pai morreu e sozinho choro que teria dado pra apagar o fogo.

Quando foi que fiquei sabendo? Não sei dizer, mas acho que desde ali entendi como se envelhecia.

2 comentários em “Compadres

  1. Olá. Lúcio

    Olha que Santa Bárbara tem histórias….E, não fosse tu, elas iriam sumindo, sumindo, até se perderem para sempre.

    Cumprimentos e abraços

    Cabeda

    P.S. Faleceu há umas duas semanas, em Cachoeira do Sul, o Carlos Augusto Borges de Souza, filho do lavrense Dr. Galvão de Souza.

    Carlos Augusto estava aposentado do Banco do Brasil e era alguns anos mais moço do que eu, que estou chegando aos 80 dentro de pouco mais de dois meses.

    Curtir

    1. Tem mesmo, amigo Cabeda.

      Esta veio da necessidade de explicar a ausência da figura do pai, mas sempre se agrega uma coisinha..

      Eu sou ruim do nome dos parentes todos (só minha avó teve 13 irmãos), mas certamente é ramo do arvoredo. Vamos em frente todos, carregando nossos passados..

      Abraço

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s