Melhor em Santa Bárbara

Quando o mundo ainda ardia e pranteava as dores dos fugitivos da Guerra, em Santa Bárbara ninguém se preocupava com aprender o civismo. Apenas se fazia o certo, o ponderado, o necessário. Pelo menos assim a minha mãe recontou para mim uma lição mal compreendida da história do mundo que a professora no colégio se embananava para nos fazer entender, de como, afinal, se havia chegado àquilo.

Não é que Santa Bárbara dispensasse de pertencer ao mundo, mas não comungava muito do regime de barbaridades que arrastava tudo consigo, da razão à compaixão. “O menos possível”, diria a mãe.

Mesmo os tribunos da Câmara Municipal eram unânimes em declarar que em Santa Bárbara se preferisse viver e prosperar pela fartura compartilhada, pelos negócios justos, pela decência maior que é ter abertos os portões da casa. Ela dizia que quando se dispensasse a ajuda aos loucos e cães da rua, a providência a todas as crianças e velhos necessitados, havia que alertar-se do perigo já entranhando-se.

O que havia ali era que o poder fosse sempre meio ridículo e não cobiçado, igual a uma cadeira quebrada que servisse apenas de assento de seres minúsculos, esquecida no mato. Sua madeira recuperada pouco a pouco pela floresta. Solenidades reservadas aos mais tolos e suas vontades de estar sempre na boca dos outros, nas entrevistas da rádio e na primeira folha do matinal. Como, por exemplo, o nosso prefeito.

A verdade é que Santa Bárbara é um lugar sem grandes traumas e saudades. Nos cadernos dos colegiais iguais a mim, ninguém nunca sabia escrever de cabeça sobre quem havia chegado antes aqui. Havia índios que sumiram para dentro dos matagais, canoa adentro. Suçaranas a bordo, jacutingas e jiboias, partindo a um território ainda melhor, esse sim protegido por Tupã, como numa arca de Noé.

Já eu nasci muito depois, quando tudo parecia meio pronto já e só havia viver como se num limite imaginário onde estava quem vinha de fora, como surpresa, ou de quem se resolvia a ir-se embora, num desajuste sem solução.

Desse tempo antigo, só tenho lembranças que a mãe me empresta de memórias suas, ainda mais antigas. O resto ela me manda ler. Ler pra não me desentender. “Veja ali os livros de história…”, ela aponta. “Prefira mais a poesia, que é maneira de contá-la com menos dor…”, ensinou-me uma vez só. “Assim um safa a sua alma das maldades do mundo”, ela dizia. “E se um se safa e outro mais, acabam safando-se todos”, ela me orienta sem prestar muita atenção no desconforto que as horas sentadas já me causavam.

Às vezes, sonho com a mãe já anciã. Será sorte de Santa Bárbara que ela esteja aqui ainda a nos advertir do que é ruim do mundo em nós. Para o mundo, seriam palavras de uma velha caduca. Daí o mundo ser esse lugar triste. Santa Bárbara sempre será melhor.

2 comentários em “Melhor em Santa Bárbara

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s