Dos males, o menor

Há dias em Santa Bárbara que acontece pouco. Dentro das casas, por trás das janelas, nada se comenta sobre o mundo. Do lado de fora, o vento varre os menores grãos de poeira em direção ao infinito. É para lá que eu olho, bem ao final da nossa rua, onde o mato se insinua e ronda a cidade, como se fosse chegar dali alguém capaz de levar de uma vez o frio e o vento de maio, sulino e enregelante e dar lugar a uma mágica primavera.

Nesses dias, por falta absoluta do que fazer e porque estão inacessíveis os pátios e no campinho de futebol florece um bamburral de guanxumas e ervas bravas, eu fico assuntando a mãe da vida de uns e outros enquanto ela prepara remendos e cerzidos e deixa o rádio de lado, com suas notícias funestas.

“Mas pegue um livro e me deixe pensar…”, advertiu-me na terceira ou quarta indagação que ela por certo considerou indigna da sua atenção. Mas pensar no quê? Fiquei pensando eu, por minha vez… Estaria ela me escondendo algo? Uma preocupação nova depois da ida ao doutor Macedo? Doente, a mãe? Seria um aluno incapaz de considerar suas ensinanças, com o que ela não se conformava? Mas o quê, afinal? E, pior, como eu vou me concentrar em ler com tantas preocupações minhas com ela assim, com o seu estado, com sua expressão cada vez mais concentrada, as sobrancelhas numa combinação sombria sulcando-lhe a testa em rugas?

É claro que há algo que ela não quer me contar e que é sério demais para mim, ela deve pensar. Essa é, afinal, a maldição de ser criança: o menosprezo… Mas eu sei que posso, de outro modo, buscar formas de consolá-la e ajudá-la, porque para inútil nunca servi.. “Deixe que o almoço eu preparo!”, anunciei já procurando nas gavetas a faca de cortar e despendurando a tábua no instante que buscava no cesto de metal as cebolas com que dourar o manjar que planejara. E não se pense que esmoreci. Por hora a fio preparei tudo e até esqueci de observar a tensão incompreensível que havia flagrado nela.

Quando o rabo rosado do galinho deixou de fazer sombra no beiral da janela, tudo estava pronto, conforme eu havia projetado. “Está servido!”, gritei-lhe dali, já com a mesa posta para nós – serviço esse, sim, que eu assumia diariamente. O sorriso que ela abriu ao ver o meu empenho era de fotografar, se ela deixasse, mas eu o guardei noutro lugar mais seguro – a minha memória…

“Que bom que se despreocupou…”, disse-lhe e continuei: “Já estava pensando no que poderia ter lhe acontecido…”, dando-lhe a deixa de me explicar e acabar com a minha curiosidade. “Ah, sim senhor… Agora eu lhe entendi!”, disse-me sem, contudo, esclarecer-me de pronto. Servindo-se do arroz mais solto de toda aquela latitude, prosseguiu: “Não há que se preocupar com a sua pobre mãe.. Acho que a velhice chegou! Estou precisando de óculos… Não vejo um palmo diante do nariz!”

“Mas, se essa for a contrapartida, então, além da mesa, o arroz agora é seu também? O que me diz?”

O que eu digo? Afora o alívio, que devia ter procurado o livro que ela havia aconselhado. Esse pelo menos teria um fim em si mesmo e não se transformaria em involuntária obrigação…

“Eu? Acho que deve sem demora marcar o médico e ver esses olhos tão… tão preciosos! Já pensou no tempo que já está perdendo sem os óculos? Isso é pra ontem! Ou amanhã! Amanhã sem falta eu lhe levo lá!”

Aprendam comigo: assim é a vida! Mal a gente oferece um dedo e já lhe tomam a mão. Se oferece a mão… Zapt! Há males que vem para um mal ainda maior!

2 comentários em “Dos males, o menor

  1. Perseverai, irmãos! Na perseverança encontrareis o sucesso ….

    Se não me engano, a rua principal da tua Santa Bárbara é a Pires Porto, não?

    Cumprimentos

    Cabeda

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