Curupiras…

Dos tipos mais brutos e selvagens que já andaram por Santa Bárbara, poucos se comparam ao João da Canoa. O João era chamado assim porque vivia a esculpir num tronco esfarelado de corticeira o que para ele seria a canoa ideal para um dia tomar do leito do arroio e sumir-se de Santa Bárbara igual a um índio.

Embora não houvesse notícia de índio por ali, o João tinha certeza de que não havia nascido para esse mundo de civilidades e preferiria viver noutro, de liberdades, como ele sonhava ser o mundo dos pele-vermelha.

A família do João era tão pobre, mas tão pobre que nem tevê tinha em casa. Acho que por isso o João não tinha nunca visto os apaches cozinhando vivos padres e outros que se atravessassem em seu caminho. Ou então o que aquele Gerônimo podia fazer aos soldados yankees com um mero arco e flecha.

Uma vez só eu consegui fazê-lo sentar comigo no sofá da sala para que se instruísse pelo aparelho em preto e branco do que eram capazes, afinal, de fazer a um semelhante os seus amados silvícolas. A bem da verdade, embora assim eu pensasse demovê-lo da intenção, o João só aceitou mesmo porque a mãe havia feito pães-de-minuto e ofereceu-lhe junto um copo de suco fresco de goiaba. De outro modo, o João preferia ficar pelos matos, sempre meio sozinho, igual a um Curupira, pescando nos apanhados de pedra dos poços de sanga com as mãos e catalogando os cantos dos passarinhos. Ou então na interminável fabricação da canoa que lhe emprestava o apelido e a fama de maluco incorrigível.

Mas a imagem daqueles guerreiros armados não conferia muito com a imagem que o João fazia de si próprio enquanto índio, ainda mais que fosse sardento e tinha os cabelos ruivos como em labaredas. Então, por isso, ele não se interessava muito nas imagens borradas da Telefunken. Estava ali mesmo, e não escondia isso, era pelos dons culinários da mãe. Era um selvagem autêntico, o João.

Depois fiquei uns tempos sem saber do João. Ele deixara de frequentar a escola mal soube que teria de decorar a tabuada. “Nem pensar essa coisa toda aí!”, ele nos disse no pátio um dia. Logo ele que tinha uma memória formidável para plumagens e cantos os mais indistinguíveis. Mas ele não voltou mesmo aos bancos escolares. Era um selvagem o João da Canoa. Ou um sábio.

Mais tarde peguei de fazer uma expedição em busca do João, porque a casinha de madeira onde ele morava só com a mãe – igual a mim – estava virada numa tapera. E a corticeira não tinha virado canoa, estava igual a sempre, ancorada no mesmo lugar. Notícia era de que haviam ido embora dali de Santa Bárbara porque um parente lhes oferecera um roçado de herança e naquele rumo eles se foram.

No entanto esse seria um fim muito óbvio para alguém fantástico como o João da Canoa: sumir no mundo como um caixeiro viajante ou então virar mais um ordinário lavrador.

Uma noite sonhei uma despedida muito mais digna do meu amigo de olhos vermelhos. Da portinhola da sua casinha, eu fora lhe convocar para ser goleiro do time do colégio e o João estava entretido com sua faquinha em esculpir a árvore, sua vítima. A mãe lhe gritava “João!”, “Ora João!! Venha duma vez que o seu colega quer lhe fazer um convite aí!!”. De longe, apenas ouvíamos ele avisar “Mas eu já vou!”, “Me espere, só!” e “Tô indo já!” Só que de aparecer, nada…

Porque não sou, nunca fui de ter muita paciência, fui eu mesmo em busca dele. Então eu vi o impossível: o João tentava mesmo vir ao nosso encontro, mas, ao invés de vir em minha direção, os pés lhe puxavam para dentro da mata, que isso para muitos é um chamado irrecusável. E embora a situação me parecesse angustiosa, o João tinha um sorriso na face e admirava-se também do que lhe acontecia, mas não lutava contra aquilo, deixava-se levar desaparecendo aos pouquinhos, transformado finalmente ele mesmo numa criatura.

Diante da insólita situação eu ainda consegui pensar que, com os pés virados daquele jeito, pouca utilidade teria o João no futebol. No sobressalto de acordar, pensava que absurdo seria tudo aquilo se fosse real ao invés de mero sonho. E, de repente, me senti um selvagem que tivesse escalpelado o próprio espírito por, em circunstâncias tão assombrosas, ainda estar fazendo contas de como fechar o time sem poder contar com o João. Eu definitivamente era um ser humano lamentável e decidi naquela manhã terminar o serviço do João na canoa e seguir eu mesmo, dia desses, o caminho interminável dos jundiás, dos martins, jaçanãs, maçaricos, saracuras…

2 comentários em “Curupiras…

  1. Olá, Lúcio

    Muito boa essa história!

    Só quem é interiorano sabe apreciar os tipos humanos com que nos deparamos em nossa existência…..Quantos Joões da Canoa não andam por aí?

    Abraços e cumprimentos à tua esposa pelo transcurso do Dia das Mães

    Cabeda

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