Às labaredas

Porque fazia certo frio noturno em Santa Bárbara desde o fim do verão até o encerramento da primavera seguinte e a mãe fazia questão de renovar as esperanças permanentemente, em casa, à noite, nós atiçávamos o fogo com folhas do almanaque que o jornal nos enviava todo o ano.

“Isso é pra renovarmos as esperanças de que nesse ano tudo mude”, ela dizia como se num mantra silencioso evocasse uma espécie de íntima oração. “Nem que seja para dar lugar a novas tragédias…”, insinuava para concluir com um olhar severo dirigido às labaredas e um mal pronunciado pedido: “…mas melhor que sejam melhores notícias!”

Assim, eu ia enrolando no dedo indicador tubetes com as páginas do almanaque e os colocava junto aos gravetos para aquecer a nossa exígua sala de estar, com o fogo na lareira subitamente tornando ali o lugar mais aconchegante das redondezas. Por ali se iam as notícias das enchentes, os anúncios publicitários, a previsão do clima destinada ao cuidado dos agricultores e até resumos dos discursos proferidos no legislativo estadual acompanhados das imagens das pálidas figuras dos deputados. Tudo virava combustível para o calor que a mãe exigia ter em casa, friorenta que ela era.

O passado, de acordo com ela, não deve serve para admiração nem para o conforto. É preciso revirar o ânimo do tempo para incutir no espírito vontade de melhorar. Eu acho que isso ela absorveu de alguma recomendação de Augusto Comte, deve ser. Na sua filosofia de vida jamais escrita residem muitas recomendações à vontade humana que sempre me soam estranhas porque o que eu mais vejo no raio do meu mundo são pessoas sendo levadas pela vontade alheia. Eu mesmo, sentado no banco da escola a aprender geometria ou a mecânica newtoniana, por exemplo…

A mãe não pode sonhar isso, mas um dia eu decidi jogar às labaredas (em oculto) o que eu também me decidi por apagar completamente. E assim noite a noite foram-se o movimento uniforme, vetores, cálculos sem fim e inércia, tudo queimado junto às folhas dos almanaques. Não deixava de ser forma de eu renovar as esperanças em livrar-me daquilo tudo.

“Tudo menos a inércia!”, eu lhe dizia e ela me observava entre indulgente e orgulhosa por eu ter aparentemente aprendido dela suas recomendações férreas ao espírito. Eu não somente aprendi como acresci meus próprios saberes. É como deve ser a educação, já dizia… Augusto Comte? Talvez ele nunca tenha dito algo parecido e eu é que imaginei que ele dissesse. À sanha do fogo, que diferença isso faz?

3 comentários em “Às labaredas

  1. Excelente, caro amigo!

    Continue e, antes que me esqueça do velho refrão interiorano, “só se lembram de Santa Bárbara quando troveja….”

    Abraços

    Cabeda

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