Excalibur

Dos visitantes e vendedores que às vezes andavam por Santa Bárbara, a mãe apenas dava alguma atenção ao seu Sandoval Lusardo. Lusardo ou Luzardo, eu nunca aprendi como se escreve direito.

Ele se hospedava na pensão da dona Mariazinha de Lourdes, quase na saída da cidade, e de lá até ao centro vinha eu não sei como, carregando com as próprias mãos aquela mala toda quando não passava ninguém para lhe oferecer carona. Logo ali ficavam os chacareiros da cidade e, dia sim dia não, eles abasteciam as verdurarias e fruteiras da cidade com suas especiarias e costumavam nesse trânsito emprestar corridas em suas charretes por alguma módica gorjeta.

Algumas vezes, no entanto, o seu Sandoval dava azar no dia e não passava ninguém, de modo que tinha ele mesmo de trazer a mala de encomendas. A julgar pelas pernas compridas e braços finos, ninguém diria que ele era um homem muito forte, mas ele era e a prova disso era a mala que ele trazia e na qual deixava os meninos testarem a força, como se uma espécie de espada encravada ao solo. Ninguém podia. Assim que somente a chuva torrencial podia atrasar o seu périplo pelas escolas da cidade, a casa do padre e um ou outro vereador que lhe encomendava (ainda que raro) brochuras da capital.

Os livros que ele costumava trazer era os que vendiam bem: O Mundo da Criança, o Tesouro da Juventude, antologias selecionadas de clássicos nacionais e universais, além de pequenas enciclopédias. As grandes enciclopédias ele quase não vendia e apenas a mãe tinha uma na biblioteca do colégio a qual eu tinha acesso livre. A negociação da aquisição foi das mais severas que presenciei e eu achei que ele a mãe estavam rompendo relações pelos tantos impropérios que ela lhe dirigia na saleta anexa ao refeitório escolar: “explorador”, “oportunista” e outros irrepetíveis. Mas ela foi quem acabou cedendo e, quando foi o dia da entrega, o seu Sandoval precisou mesmo de uma carona para o transporte das duas caixas com os muitos volumes.

Não vou dizer que tudo o que havia conhecido até então perdeu o sentido, mas algo me compelia a vasculhar os volumes diagramados em colunas e em explicações diretas aquilo que mesmo os professores pareciam saber apenas em superfície. Do A ao Z final, eu calculava que levaria duas vidas para dar conta dos vinte volumes, mas a minha disposição depois que a Valentina se fora de Santa Bárbara era de ficar em casa sem mais esperanças nas pessoas. Concentrei-me na enciclopédia sem me preocupar com o amanhã nem com as imprecações da meninada que ainda me queria para a zaga do futebol de rua.

O primeiro dia do outono não me deixava esquecer que havia um longo inverno pela frente. E, bem, se eu precisasse de mais de um inverno, eu agora, sem as tentações do amor platônico e o apelo da infância, era senhor do meu tempo. Tempo regido por Cronos, o príncipe dos titãs e filho de Gaia e a quem posso olhar de qualquer lado embora jamais detê-lo.

Quando o seu Sandoval parou de visitar a cidade, nunca sabemos se havia morrido ou o quê. Ele, que gostava de exibir a herança do seu avô, um relógio de bolso, sem saber ocupou os meus dias ao tempo em que supria a minha ignorância com coisas que eu mal compreendia. A mãe sentia muita falta porque, afinal, eram amigos e discordavam sempre amistosamente, como num esporte estranho, de esgrima. Para mim, era um homem santo. E quando eu fosse grande a ponto de poder retirar sem a sua ajuda uma mala de livros de chão, como a espada do mago Merlin (ou da Senhora do Lago), eu saberia que me tornara finalmente grande o bastante.

2 comentários em “Excalibur

  1. Em minhas andanças pelo interior, que fiquei conhecendo graças ao Banco em que trabalhava, soube de um colega de seu Sandoval, também vendedor de enciclopédias, que teve bem mais sorte. Ofereceu a enciclopédia à viúva de um empresário e….acabou casando com a viúve!

    Graças à enciclopédia…..

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