Um tipo estranho de cão

O que restou da única sinaleira instalada certa vez (e desativada) em Santa Bárbara foi um poste no qual depois, por muito tempo, eu gostava de fingir que ia brincar. Eu dizia à mãe: “Vou no poste!” e ela, acostumada ao hábito canino, deixava que eu fosse sem maiores interrogações. Na verdade, eu ia muito mais para averiguar a presença furtiva e ocasional de uma sobrinha da Dona Coitadinha que às vezes passava os domingos no casarão da esquina.

Da instalação, eu lembro que vieram engenheiros e eletricistas da capital num caminhão que tinha um logotipo da Companhia de Energia pintada em ambas as portas. Atrás, uma escada levadiça com uma espécie de caixote onde se dependuravam os técnicos da geringonça. A vizinhança toda se alterou com aquilo e a meninada pagou um suco e um bolo pro moço da luz tirar de cima dos telhados das casas as tantas bolas desaparecidas. Suco de saquinho; bolo roubado do forno da mãe de alguém…

O objeto em si mesmo atraiu a atenção inclusive das cidades vizinhas. Dizia-se que Santa Bárbara agora iria se desenvolver como lugar importante, não seria mais um lugarzinho, rocinha de gente desimportante e seria razão de orgulho em dizer dos ali nascidos: “sou barbarense”! O poste cravado bem na esquina seria o lugar que delimitaria, portanto, dois momentos da história municipal, marcando um antes e o depois da civilização intrínseca ao instrumento piscante que autorizava transeuntes a passar ou deter-se, dando lugar aos provenientes das perpendiculares.

No mais das vezes a sinaleira trabalhava sem necessidade, mas o prefeito gostava de saber que ela estava lá e em sua gestão fora instalada. Diziam que ele aparecia no alpendre da prefeitura religiosamente para ver se o sinal piscava e na ordem certa, de cronômetro em punho.

Inevitavelmente, com a instalação, muitos acidentes seriam evitados num futuro hipotético, mas o que acabou acontecendo mesmo foi que os poucos motoristas acostumaram-se a automatizar o hábito e reger-se por ele, esquecendo-se da própria capacidade e atenção. O novo ritmo urbano instaurado, todavia, deixava de prever que as pessoas nem sempre andam concatenadas aos relógios exatos, mas ao relógio de dentro, que é sempre meio desgovernado. E, fora isso, havia ainda os animais destreinados de qualquer urbanidade: os cães vadios e os gatos fujões de Santa Bárbara.

Na mesma casa da esquina do poste, morava um destes cãezinhos e foi por um dia ajudar a alimentá-lo que eu conheci a sobrinha da dona da casa. Era preto e branco e oferecia a mão ao cumprimento, amostra de sua boa índole e educação. Mas fugia eventualmente por razões que escapam à compreensão da gente e deixava a dona da casa muito preocupada. Depois, quando voltava, ganhava dela mimos e quitutes de fazer inveja aos humanos.

Num erro de cálculo, todavia, jogou-se ao cruzamento o animal numa hora em que a sinaleira não ordenava ao motorista parar e ele realmente não parou, causando a morte do pobre bichinho. A senhora dona da casa, que nessa época não era chamada ainda por Dona Coitadinha, sofreu como se fora um filho seu, no que lhe é de direito sentir.

Tomado por uma perfídia terrível, imaginei que, sabendo do ocorrido, a sobrinha viria não sei de onde para passar uns dias com ela, mas não veio e eu apenas ficava tentando lembrar de cabeça quantas eram as sardas que ela tinha mesmo nas bochechas, como se numa via láctea ao contrário.

O resultado foi que o desconsolo duradouro consagrou a alcunha da vizinha, o prefeito mandou tirar o poste e proibir reinstalação e eu me tornei um tipo estranho de cão por frequentá-lo na esperança baldia de reencontrar os olhos da menina numa das janelas da casa da infelizmente solitária Dona Coitadinha.

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