Um monumento ao vento

Bem ao norte de Santa Bárbara, quase na emenda com Rosário pela pinguela sobre o Arroio Quebrado, é que ficava a biruta.

Foi a mãe que, um dia voltando de Rosário pelo ônibus, passou diante do novo campo de pouso e a viu, um trêmulo monumento ao vento. “Eu quero ver, mãe!”, disse-lhe no domingo de chuva que nos poupou da missa.

Verdade que a mãe cada vez mais cabulava os deveres com a paróquia e entretinha-se nos “novos” livros que recebera dos órgãos estaduais; não eram livros novos, mas ela os examinava a todos e parecia – com critérios que eu desconhecia – tomar decisões quanto ao que ler e também quanto aos deveres sociais os quais declinaria. A missa inclusive.

“Está bem, menino!”, ela falou e eu sabia que quando ela dizia “menino” era porque não queria que eu a importunasse repetidamente com o mesmo assunto e deixasse-a na paz da sua leitura. Mas saí dali com a promessa dela me levar a conhecer a biruta.

Pela tarde, após o almoço e o descanso que os bons livros não lhe permitiam, tomamos da rua central e partimos rumo ao norte da cidade, onde o campo de pouso fora instalado. Fomos a pé e com muito custo, pois todos que a encontravam queriam indicações de chás e perguntavam por onde andava e porque faltava à missa e outras perguntas milhares, sem fim..

No caminho, eu procurava ver a biruta e fantasiava encontrar alguém como a dona Marcelita, que tinha a fama de biruta e me parecia alguém com disposição de encarar desde uma brisa até as ventanias mais bravas. “Ela é como a dona Marcelita, mãe?”, indaguei-lhe e ela me garantiu que não havia biruta como aquela em Santa Bárbara e que eu me preparasse para ser surpreendido. Com sorte, haveria até um avião decolando para acompanharmos enquanto roeríamos as broas que ela levava em sua bolsa de palha.

Passamos o cerro da goiabeira miúda e lá estava, finalmente, o campo de pouso conforme ela anunciara, estalando de novo, prometendo progressos e orientado pela biruta desregulada. Quando ela procurava me esclarecer quanto à natureza e utilidade do instrumento aeronáutico, como boa professora, eu me intrigava com o nome de batismo daquele tubo de tecido inquieto. Mas aprendi tudo o que ela disse, afinal, ai de mim, pois ela me perguntaria mais tarde e, se não lhe prestasse atenção, adeus passeios de domingo.

Nada de mais a biruta – exceto pelo nome. Mas, questionado por ela no caminho de volta, ainda extasiada pela novidade, resumi minhas impressões da forma mais sucinta e eloquente que consegui: “É uma birutice!”

Ela riu.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s