Precauções e evitações do José Louco

Desde que posso me lembrar, diziam que o José Louco não havia nascido em Santa Bárbara, mas ali perto.

Uma cidadela orgulhosa da sua integridade, da sua singeleza e cordialidade não teria permitido que um só cidadão seu, mesmo que fosse o mais desgraçadamente pobre, pudesse levar a vida que nem aos cães vadios se permitia.

Por muito menos, o padre e os doutores fariam por remediá-lo, mas a loucura do José era de outra sorte. Era uma que dizia de pessoas sem esperança de controlar os impulsos e pesares, ao ponto que ele chegava a passar dias a fio, semanas inteiras, sem tomar um banho direito ou lavar-se e, não por isso, alguém deixava de dar-lhe o “bom dia” ou oferecer-lhe de bom grado o que de comer e de beber.

Em troca, o José sempre devolvia histórias inacreditáveis de lugares que supostamente conhecera, mesmo sabendo-se que nunca arredava os pés descalços dali, de Santa Bárbara, e também premonições amalucadas. Eu, que era mais novo e já o conheci branqueando a barba e os cabelos desgrenhados, gostava de ouvi-lo porque muitas vezes suas histórias tinham mais aventuras e mais realidade até mesmo que os livros da biblioteca da mãe.

Depois que a Valentina se foi, eu pensava que, se eu simplesmente me deixasse ficar, poderia acabar igual a ele. A mãe temia por isso e não era por compaixão com o coitado, mas por mim, seu único filho. E não há mãe no mundo que tolere saber que um filho possa ter duas vidas: uma do corpo, inadequada ao chão onde pisa; a outra em lugar indefinido e incompreensível, da mente.

Muitas vezes eu briguei a sério com meus colegas quando chamavam sem mais nem menos o José de louco. Eu não me conformava porque, na boca dos guris, aquilo tinha um peso de condenação, enquanto que, na dos adultos, um tanto de pesar apenas, de comiseração. É que o ser humano tem uma idade que não provou de nada e desdenha de tudo, como se fosse indevassável, mas é tudo ilusão e possivelmente até mesmo o José tenha vivido esses dias.

A mãe mesma certaz vez contou-me que ele fora amigo do meu pai, quando eram crianças, e tinha uma família pequena que, todavia, num inverno a gripe levou inteira e sobrou só ele.

“Aí trabalhou de muita coisa, o pobre”, ela contou.

“Mas a mão foi deixando de obedecer ao coração e, quando isso acontece, qualquer um perde a vocação…”, disse-me.

“Fica um danado, enlouquece…”, contou-me olhando bem nos olhos como se medisse em mim a minha própria vocação ou, talvez, o quanto já ia ela se perdendo da mão porque a todos isso acontece, de acordo com ela, num momento ou outro da vida. E é por isso que em Santa Bárbara ninguém condena, persegue ou maltrata o José.

Eu sei bem, não é preciso que me lembrem que eu mesmo comecei contando sua história chamando-o de José Louco, que essa é sempre maneira de diferenciação de um e de outro. É que tem muitos Josés por aí e, no caso, a ocupação maior do José é com os próprios pensamentos e é a isso que dizem ser a loucura.  Mas a verdade é que em Santa Bárbara ninguém o chama assim publicamente. Muito menos eu.

A cidade inteira, por outro lado, é grata a ele porque ele sabe antes de coisas que talvez por isso mesmo nunca aconteçam e essa evitação é bem-vinda principalmente lá pelas bandas da prefeitura, na qual o seu homônimo, o emérito José Fagundes, nosso prefeito (que não é lá muito bom de antever problemas ou pensar em providências sozinho), mal secretamente se aconselha com o José.

É por isso que nesse verão que se aproxima – ao que dizem, de uma seca terrível – o prefeito instituiu que, de tanto em tanto, as casas da cidade deveriam instalar uma bica de água na fachada, de livre acesso aos transeuntes que pudessem por nada estar quase à insolação.

Ninguém deixará de atendê-lo, nem pensar, porque ninguém pode simplesmente deixar um outro homem ou mulher à inclemência solar. Os mais sovinas poderiam pensar que o José dessa vez advogava em causa própria e que seria ele mesmo o único beneficiário da precaução emitida. Poderiam, mas ninguém pensava. Não ali.

Louco, na sua fala cada vez mais inconsequente, todos que o escutavam percebiam que o José desaprendia até a falar, mas nem por isso em Santa Bárbara seria menos gente e considerado. E agora, com suas poucas palavras, o José inventou de dizer que até a água pode acabar, então que se a gaste bem. Louco é pouco, mas quem há de lhe contrariar?

2 comentários em “Precauções e evitações do José Louco

  1. Ahaha…adorei! Muito bom, Lucio. Ler que “não há mãe no mundo que tolere saber que um filho possa ter duas vidas: uma do corpo, inadequada ao chão onde pisa; a outra em lugar indefinido e incompreensível, da mente.” e “A cidade inteira, por outro lado, é grata a ele porque ele sabe antes de coisas que talvez por isso mesmo nunca aconteçam e essa evitação é bem-vinda” foi um deleite imenso. Estou aquerenciando os olhos nessa Santa Barbara! Abração!

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