Valete de paus

A hora mais triste dos domingos era a em que precisava despedir-me dos primos, deixá-los no inexplorado da sua casa sem que pudesse mais saber onde estava o quê e em que lugar poderia me esconder para ficar um pouco mais e não ter de voltar para a casa de sempre, a nossa casa, a casa de acordar no outro dia.

A casa dos primos, para mim, não era a mesma casa dos irmãos dos meus pais, para eles. Eram dois mundos no mesmo mundo, ou mais. Para mim, impossível conhecê-la por inteiro. Lá não havia tesouros inestimáveis, mas o mais natural dos mistérios que compete na vida dos outros e está guardado em suas gavetas, sob as mantas dos seus roupeiros, dentro das latas das suas bolachas. Meu tio Américo era um tio fantástico não porque inventasse histórias incríveis, mas porque acreditava nelas. E eu via nos seus olhos de esperança viva que sonhá-las e desejar vivê-las era até mais importante do que se acontecessem. Era bom ter sonhos em mente nem que fosse apenas para atravessar aqueles dias e suas dificuldades.

O tio Américo, com nome igual ao do navegador, estaria varrendo os mares (com os olhos, ele varria) se a vida não tivesse lhe confinado numa garagem com seus estranhos instrumentos. Eu mal sabia dizer o nome do seu ofício, mas assistia incrédulo a ele esculpir o preenchimento de bocas e dentes que o tempo ia extraindo às pessoas. Ali, ele também tinha guardadas galletas duras e secas que os uruguaios vendiam na fronteira por um preço tão humilde quanto seus fregueses. E me alcançava uma por uma quando lhe pedia, mas nenhuma a mais que isso. Eu quase nunca tinha mesmo coragem de pedir ou de lhe interromper.

No pátio estreito de sua casa, um dia fiquei muito tempo procurando o que fazer até perceber que estava perdido e trancado por um portão que dava bem para os fundos da sua oficina. Nada secreto lá dentro a não ser pilhas de jornais e revistas velhas, o perfume do gesso ensacado e queimado, e um tanto de lenha para queimar no inverno. E, por uma janelinha de vidro enrugado, enxergava as próteses nas quais ele endireitava a boca de meio mundo, como se fantasmas adormecidos por mágica.

Ninguém me notaria se eu começasse a ler aquilo tudo e parasse só ao terminar, anos depois? Então deveria gritar, talvez assim me ouvissem. Mas era como se um pesado cobertor de lã cobrisse tudo e me fornecesse o esconderijo que tanto desejava para ficar escondido e oculto de todos.

A voz do meu pai do lado de fora e a do tio Américo eu ouvia perfeitamente, mas não eles a minha, vacilante e infantil. Ficar ali não podia ser, mesmo assim, uma decisão eterna e mais cedo ou mais tarde alguém investigaria o lugar por completo e acabaria me encontrando, então, decidi ficar ali quieto até que isso acontecesse. Se tivesse fome, sabia onde estava a lata de bolachas e era onde também havia, às vezes, caramelos do tamanho de azeitonas. Do que mais precisaria?

A luz crepuscular da tarde que se acabava, avermelhada, aos poucos deixava de entrar no lugar e os ruídos de grilos, sapos e morcegos começavam a ocupar o silêncio do galpãozinho onde me enfiara. E logo seres que eu lembrava dos livros também se faziam ouvir e eu imaginava já um longo discurso para convencê-los a que desistissem em me devorar vivo. Esse seria um fim de vida absurdo para quem recém apaixonara-se no colégio (mais uma vez) e agora delirava ser correspondido.

Num gesto heroico, pensei num plano que, sem dúvida, seria lembrado em toda a Santa Bárbara como um feito de um general acossado pelos demônios castelhanos ou pelos malditos caramurus ou por qualquer louco do cerco de 93, quando todos enlouqueceram e era preciso defender até a alma dos diabos que andavam soltos. Munido de uma vareta que me servia de florete e alçado a um cavalo improvisado num cabo de ancinho, como um valete de paus, empurrei a porta que imediatamente se abriu. Dando de cara com eles, fui abraçado como se voltasse de uma viagem de volta ao mundo e me deixaram, como quase nunca, contar detalhadamente a minha história – inclusive a parte em que expliquei como fora salvo de morrer de fome por aquele tesouro contido na lata. “E não deixei uma só bala para aqueles bandidos todos!”, contei-lhes esperando secretamente por uma tácita absolvição do meu crime horrendo. Não sempre, mas, às vezes, os adultos conseguem decidir as coisas com sabedoria.

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