Um novo amigo

O melhor amigo da minha infância se chamava Ricardo e morava, igual a um hobbit de Tolkien, numa casa na qual se entrava descendo por uma escada que se abria diretamente da calçada. Parecia uma toca.

Era engraçado assistir as pessoas da família chegando em casa quando estávamos no canteiro central da rua jogando bolas de gude; elas caminhavam e sumiam ao mesmo tempo, como se tragadas pelo calçamento enquanto desciam até a porta de entrada da casa da família dele. Pintada em bege, a porta não tinha sequer maçaneta e por ela só se podia entrar se fosse aberta por dentro. Então eles batiam e gritavam lá embaixo e quem estava na superfície achava que podia estar louco sem entender de onde vinha a barulheira. Era meio cômico e a gente gostava de rir daquilo.

Lá dentro, a casa também deveria ser como a dos hobbits, pois tinha um perfume perene de legumes cozidos em madressilvas e outros temperos esquisitos e essa era a razão pela qual eu sistematicamente recusava ficar para o almoço nas manhãs de sábado em que madrugávamos para aproveitar a exceção do dia sem as obrigações escolares e familiares. Os sábados pela manhã são para mim desde então o melhor turno da semana e eu me recuso a perdê-los entre a penumbra dos quartos de dormir. Preciso daquele sol como uma árvore desesperada. E o Ricardo, que morava numa toca, nem se fale.

O Ricardo foi desde sempre a pessoa mais crédula que eu conheci. Ele acreditava em coisas que, na idade que tínhamos, a gente já começa a desconfiar que pudesse ser mentira. Seus olhos eram os olhos de quem queria crer em coisas impossíveis e irreais, e convertia a ficção em verdade mesmo quando fossem flagrantes absurdos, como histórias de assombração e de astronautas.

Eu, por outro lado, era cético a ponto de duvidar que o homem tivesse mesmo um dia chegado à lua. “Nessas geringonças aí?”, eu indagava aos meus pais quando a tevê reprisava as cenas da pegada da bota de Neil Armstrong em solo lunar. Mas o Ricardo acreditava e tinha medo até que a lua fosse cair sobre a sua casa, como um vizinho novo nosso um dia resolveu inventar para amedrontá-lo.

Esse vizinho novo veio morar na casa meio esfrangalhada da Dona Argenta e era bem metido a espertezas. Não era igual a nós, uns bocós convictos no bom que há em ser criança. No jogo de bulitas ou no futebol da calçada, ele adorava dizer que tinha feito mundos e fundos no alto da sua dúzia incompleta de anos. Mas, por essas implicâncias que as crianças desenvolvem, tal como as espinhas na cara, ele entendeu de implicar sistematicamente com o Ricardo como se ele fosse uma pessoa só, e não duas, como éramos na verdade.

No entanto, como todo mundo tem um ponto fraco, esse guri também deveria tê-lo e, dessa maneira, passei a observar suas conversas e gestos felinamente. Eu tinha assistido naqueles dias um filme no qual um puma afiara as unhas e perseguira uma raposa por semanas até conseguir finalmente tê-la entre os dentes. Com essa determinação secreta instruindo meus pensamentos, decidi que vingaria o meu melhor amigo.

Ele, porém, na mesma medida em que demonstrava malícia, era obediente à sua mãe viúva como nenhum de nós ali era completamente em relação às ordens dos mais velhos. Sempre esticávamos os prazos e deixávamos os temas de casa para o último instante quando havia razão que o justificasse, como os torneios de qualquer coisa que jogávamos ali como se fossemos verdadeiramente atletas olímpicos.

Uma tarde, na verdade uma tardezinha de domingo, a sua mãe colocou o rosto para fora da janela da sua casa e o chamou de um grito só pelo nome, “José Antôôôôôônio!!!” Sem sequer lamentar-se, deu as costas ao jogo e voltou pelos mesmos passos que antes o trouxeram até nós, sumindo em direção à casa. Nem sequer justificou-se ou esboçou tentativa de mostrar revolta e aquilo nos pareceu, a mim e ao Ricardo, algo muito suspeito. A competição poderia ser adiada, sem dúvida. Precisávamos encontrar o ponto fraco dele e seria naquela situação de vulnerabilidade extrema. Seríamos muito burros se não aproveitássemos para invadir as janelas da sua casa – pelo corredor que dava para sua a garagem podíamos alcançá-la – e flagrar o José Antônio no que deveria ser a sua maior fraqueza.

Empoleirados na parede esboroada da casa vimos o que jamais imagináramos e juramos ali mesmo, pendurados, nunca, jamais, dizer a ninguém o que acabáramos de assistir. Mas o José Antônio, porque o Ricardo achou de fazer barulho, viu que estávamos ali e testemunháramos a cena toda. Imediatamente saímos em abalada correria dali, mas o visto não podia ser desvisto nem dali e nem de lá.

Voltamos ao lugar onde os outros jogavam, mas todos tinham ido embora. Anoitecia e ficamos um pouco mais, brincando de inventar constelações imaginárias, até que vimos o vulto do José Antônio caminhando em nossa direção, encolhido e cabisbaixo. “Que vocês tão fazendo?”, perguntou-nos ao chegar junto de nós, escorados num muro qualquer. “Posso brincar com vocês?”, indagou e, desta vez sem combinarmos, fizemos que “sim” com um movimento de cabeça. Ele sentou-se ao meu lado e antes que eu dissesse o que vira no lugar do cinturão de Órion, virou-se para o Ricardo e disse-lhe que era mentira que a lua fosse mesmo cair na casa dele e que se desculpava por antes.

Naquele instante, como por uma mágica matemática que não entendíamos porque ainda não a estudáramos no colégio, mas intuíamos, deixáramos de ser dois para ser três.

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