Tio Américo

Porque ele sabia consertar qualquer coisa, eu por muito acreditei que o tio Américo seria o mais perfeito presidente do Brasil. O pai sempre dizia que o Brasil era um país estragado e por isso eu tinha certeza que, se dessem uma chance ao tio Américo, ele daria um jeito em deixar todo mundo satisfeito.

Com seus dedos rápidos como lagartixas, cheguei a ver como ele conseguiu, tirando um parafuso daqui e aplicando uma fita isolante ali, ressuscitar magicamente o rádio do vô Colombo e até soldar as pás da batedeira Walita, daquelas bem antigas, da vó Talita, e que eram feitas de um metal estranho e que por isso exigiu dele muito estudo. A oficina que ele tinha no quartinho ao fundo do pátio era uma verdadeira UTI de coisas impressionantes que pareciam que tinham sido treinadas a desabar sobre os intrusos (e a secreta instrução de poupar a minha vida).

Eu tinha certeza que um dia eu chegaria na porta do galpãozinho e ele estaria fabricando um robô ainda mais inteligente que o M3-B9 G.U.N.T.E.R. Mas não foi isso que eu encontrei ali sem querer, numa das minhas muitas intrusões repentinas. O que eu vi foi o último suspiro do tio Américo e uma fotografia amassada que ele tinha na mão direita, como se fosse uma receita de salvação para ele, mas que não salvou-o, infelizmente. E o olhar que ele me lançou, o último dele, parecia uma advertência que nunca pronunciou. E eu nunca soube o que poderia ser.

A foto em preto e branco, eu soube depois pela mãe, era de uma moça tão bonita que parecia atriz de cinema e que tinha sido um amor impossível do tio, de uma visita dela por aqui, em Santa Bárbara, por volta de mil novecentos e quarenta e poucos. E que depois nunca mais voltou. Ela era sobrinha do melhor amigo do tio, com quem acabou fugindo para um lugar não sabido, talvez o exterior, segundo o que sabia a minha mãe.

A caligrafia dela era tão arredondada que eu não conseguia entender como era o seu nome ou o que dizia. “Américo” eu consegui ler porque estava escrito numa letra grande e sobre um desenho que parecia ser uma nuvem desenhada a lápis azul.

O tio Américo era um engenheiro (ou cirurgião) frustrado que ajudava todo mundo consertando coisas quebradas e aparentemente inúteis, a troco de recompensas tão poucas que ao menos lhe permitiam sobreviver com decência. Ele não esperava mais do que isso mesmo. Teria feito ele mesmo, se pudesse, um avião com as próprias mãos e partido em busca dessa moça, mas ela preferiu ao primo e, sem sabê-lo, acabou fazendo dele um consertador das coisas dos outros, menos do próprio coração estragado.

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