Seu Ben-Hur

O mais impressionante nas bochechas do seu Ben-Hur era que ele parecia que ficava sem respirar a cada golpe de martelo que desferia contra o fundo do solado dos sapatos que a mãe às vezes me fazia levar às pressas para ele consertar. Depois do armazém do seu Antônio, a sapataria do seu Ben-Hur era o lugar mais perfumado de Santa Bárbara. Tinha o cheiro do couro curtido entranhando-se no de cola. O dos parafusos engruvinhados misturado ao de terra batida do piso e que exalava um perfume como se de ventanias que tivessem se acomodado nas prateleiras rudes do lugar e, por isso, o odor ali havia se tornado perene, imutável. Também, e o melhor de todos, provinha do fundo de uma lata ovalada e desbotada na qual ele guardava broas de milho que a mulher lhe enviava todo o dia como farnel e que ele me fizera descobrir como se fosse acaso.

O Jorge Reinaldo tinha esse nome para homenagear ao mesmo tempo o craque do Atlético mineiro e o santo de devoção da família. Quem visse o tamanho do Jorge Reinaldo nas fotos da sapataria não imaginaria que ele teve a vida por um fio por mais de quatros anos seguidos desde que nasceu e os médicos desenganaram o casal, dizendo que seria melhor se eles logo se conformassem. Eles não se conformaram e viajaram por muitas cidades até chegarem aqui, em Santa Bárbara, em busca de algum recurso, mas então felizmente o Jorge Reinaldo já estava livre de perigo como se por magia e agora até estudava na capital.

Acho que para me impressionar, a mãe dizia que o seu Ben-Hur sempre proibira ele de entrar na sapataria. Ao contrário de todo o mundo, ela dizia que, quando havia sido sua professora, o Jorge Reinaldo estava sempre na biblioteca do colégio e por essa razão sem dúvida logo ele seria um astronauta. Ser astronauta era a ambição de todas as crianças, mas um sonho só permitido aos muito esforçados.

Com os óculos pesando contra a ponta do nariz, o seu Ben-Hur conversava mal olhando em minha direção quando estava concentrado em concluir algum serviço, principalmente se fosse para a minha mãe. Quando eu dizia qualquer coisa, ele apenas movia as sobrancelhas mais para cima ou para baixo e assim, nesse código, eu entendia se ele concordava ou discordava das coisas que eu lhe dizia. Sua preocupação era que o relógio não corresse rápido demais a ponto de que ela perdesse a hora. Quando eu me aquietava porque percebia sua concentração, ele dizia “Pode falar, não se preocupe. Você tem melhores notícias do mundo que o rádio…”, e apontava com as sobrancelhas uma caixa preta retangular imensa que tinha entre as prateleiras.

Se ele deixasse, eu passava ainda mais tempo ali dentro da pequena salinha vasculhando suas quinquilharias. Eu gostava de escolher e alcançar-lhe, do fundo de uma sacola de pano acinzentado, as melhores peças de couro e tacos de madeira para os consertos que precisava fazer. Ele olhava tão compenetradamente as pequenas peças e parecia medir com os olhos aquela que fosse melhor lhe servir. Quando finalmente escolhia, dizia “Afinal aqui está você!”, como se reencontrasse a alguém que tivesse se escondido por brincadeira ou se as conhecesse a cada uma pelo nome. E depois, com uma gilete partida ao meio, dispensava as arestas por sobre a mesa milimetricamente organizada com ferramentas que pareciam miniaturas. Porém ele não deixava que ficasse muito tempo e gentilmente me corria dali.

Eu nunca lhe disse e nem à mãe, mas ambos sabiam que eu tinha muito desânimo em estudar. Às vezes até parecia que eles haviam combinado no que me dizer, de parecidos. Eu, porque nunca quis decepcioná-los, nunca contei a nem um deles que passava de ano mesmo era por rezar ao São Jorge que via na lua cheia da minha janela e que imaginava nele a mesma cara do Jorge Reinaldo, inclusive nos óculos de grau por baixo do capacete de astronauta.

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