O adestrador de animais

Depois de saber que o coração é que havia levado o pai, eu passei a respeitá-lo ainda mais: ao coração e seu formato. Por onde andasse e o enxergasse, eu quase o reverenciava, baixando os olhos como se estivesse diante de outra representação de Deus. Uma alternativa à cruz sombria, pulsátil e vivo, mas ainda assim capaz de ceifar da existência a qualquer um, independente de credo, de cor, fortuna ou o que seja.

Na praça da Independência, no caminho do meu colégio, na qual umas poucas árvores amontoadas simulavam um minúsculo bosque cerrado, havia muitos registros seus. Raspados nos troncos dos pinheiros e eucaliptos cidró, às vezes trespassados por flechas, partidos ao meio ou rasgados, os corações me indicavam que por ali havia passado muitas pessoas.

Mas ninguém as salvaria? Eu pensava sempre se o padre na igreja ou o doutor, no hospital, naquela sua salinha minúscula, se eles poderiam mesmo fazer alguma coisa por essas pessoas todas. Não parecia possível que fossem todos se acabar assim. A verdade é que estamos todos presos ao mesmo destino da fulminação definitiva, dessa fraqueza sem lugar no corpo. Esse calcanhar de Aquiles, esse ombro de Siegfredo, esse sinal do humano em nós a desfazer do sonho infantil e prepotente da invulnerabilidade.

A coleção de nomes era imensa: Maria, Beatriz, João Pedro, Antonela, Zuleica, Mercedes, Ana Júlia, Alexandre, João Miguel, Helena, Carmem Lúcia e outros, quase infinitos.

No meu caderno, eu fazia o necrológio destes nomes infelizes, fulminados por esse odioso poder que afetava e afetaria, ao que parece, a quase toda a Santa Bárbara.

Como um segredo o qual nunca me atrevi a compartilhar com ninguém, eu mantinha o esdrúxulo catálogo de nomes entre as cartilhas e livros, na minha pasta, organizado sem qualquer ordem e com minha caligrafia de ogro. Imaginava que assim, se alguém o descobrisse, jamais imaginaria que eu estivesse implicado de alguma forma naquilo, naquele morticínio de gente sem fim, e não entenderia nada.

De noite, à luz morrente de uma vela que mantinha escondido da mãe, passava a limpo os nomes de todos os vitimados e guardava a lista de algumas poucas folhas entre minha coleção de gibis, álbuns de figurinhas e livros de faroeste. De dia, no entanto, guardava aquilo comigo como peça de um tesouro, num mapa de fatalidades que o destino inevitavelmente traçaria, mas que só eu sabia.

Meus colegas e amigos, que só pensavam em jogar futebol, jamais imaginariam que isso pudesse acontecer. Sua vida era quase sem sentido e significado, como se fossem soldados em guerra, salvos pela felicidade da ignorância e da rotina. Porém, do outro lado do campo de futebol cada vez mais tomado pela areia, eu intuía que o mesmo não se podia dizer de algumas daquelas meninas que olhavam para nós, ao longe, e nem escondiam os seus risos e sorrisos. A mais bonita delas, entretanto, quase nunca ria, e passava por todos com um ar de solenidade tamanho que parecia alheia ao que acontecia no mundo dos pequenos mortais do Colégio XV de Novembro, a Valentina.

Numa manhã de chuva e fria de agosto, véspera de prova de geometria, decidi que voltaria à sala de aula e que não me embarraria junto aos bárbaros meus colegas. Revisar a matéria poderia me salvar o fim de semana, afinal, para outras coisas mais interessantes. Um circo estava por vir à Santa Bárbara e, se não houvesse lições a mais ou novas provas, a mãe me prometera levar para ver de perto os animais exóticos que ainda os circos podiam exibir naquela época. O tigre era o monstro que eu mais temia e queria ver de perto; e o adestrador, diziam, podia colocar a cabeça até mesmo dentro da sua imensa bocarra. Só mesmo um louco para fazer isso sem quem o obrigasse.

Ao dobrar do corredor para a porta da sala, a Valentina saía dali de dentro com uma expressão de susto por me encontrar num horário em que todos sempre estavam no pátio. “Eu vim buscar o livro de Religião!”, ela decidiu-se por me explicar sem que eu solicitasse. Eu fiz que “e daí” com os ombros e entrei, mas achei estranho ela ali, sem as amigas. Depois, perto da janela, olhava no andar de baixo o pátio esperando vê-la passar, mas deve ter tomado outro rumo. Só os bárbaros continuavam seu jogo em meio ao lodaçal. E o resto parecia igual a sempre, a não ser o sol que rompera o acinzentado do inverno como lembrando que logo transporia de uma vez por todas a primavera.

Por força do hábito, antes de pegar os cadernos, conferi se a lista estava onde eu sempre a guardava. Lá estava, porém com um acréscimo com letra arredondada, estrangeira, com o meu e o nome dela, Valentina, bem no centro de um rubro coração. Desconcertado, desconcentrado e apavorado por saber que ela havia descoberto o meu segredo, no resto do dia não entendi a mais nenhuma explicação dos professores. Da minha fileira, apenas enxergava seus cabelos encaracolados como os de uma medusa que assim tapava a tudo e não me permitia enxergar nada mais. A Valentina havia descoberto não sei como um modo de incidir no destino dos outros e selara que eu haveria de morrer, e que seria por sua causa.

Sem saber o que fazer, na saída atrasei-me ainda mais procurando ver para onde é que ela havia ido, mas inutilmente. Ela havia sumido como num passe de mágica e todos pareciam ter sumido mais rápido que o habitual. Restou-me voltar para casa pelo caminho de sempre, chutando pedrinhas.

No “bosque”, na última das árvores que davam para a rua de casa, tremi ao ver um novo descascado no tronco e que, mais cedo, eu tinha certeza de que não estava ali. No fundo, sabia que meu destino estava já marcado e não seria pela minha vontade, mas pelo dela. A morte anda mesmo sempre entre a gente, isso eu já imaginava. Só não sabia que ela poderia ter entre suas funcionárias alguém tão linda quanto a Valentina e eu mesmo pudesse ser tão tolo quanto o adestrador do circo.

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