Minha Santa Bárbara

Que em Santa Bárbara, o município, alguém fosse tão devoto de Santa Bárbara e se chamasse exatamente Bárbara poderia até parecer estranho, mas, como essa pessoa era a minha mãe, eu sempre achei a coisa mais normal do mundo.

Da santa mártir eu acho que ela nunca teve muito. Pessoa paciente e acostumada às longas esperas e solidão, depois que enviuvou a mãe pouco saía de casa. Para o que precisasse, eu era o mandalete perfeito. E tanto fazia expediente no banco, a buscar a pensão que lhe depositava o Tesouro do Estado, quanto pagava as contas da casa e levava recados e bilhetes de sua caligrafia arredondada, de outros tempos, que eu quase nem conseguia entender, mas as destinatárias suas contemporâneas liam e respondiam por meu intermédio.

Assim é que eu saía de casa: sempre em missão do seu nome e de nossa exígua família. Além de nós e do tio Américo, os outros parentes dela viviam longe, na capital, e os do pai eu nunca soube. Ferroviário, chegou em Santa Bárbara com a instalação do telégrafo. A dona Marieta me contou que ele fazia cartas por encomenda para os “cegos das letras” que naquele tempo aqui eram incontáveis, mas, quando encontrou a mãe, professora e que cuidava da biblioteca do coleginho, passaram a trocar mais do que sugestões de leitura e disso foi que eu resultei vivo.

Quando o pai morreu fui em quem viu por primeiro e, embora não me acreditem, vi sua alma evaporando e indo morar detrás da penteadeira da mãe. E é por isso, eu acho, que ela fica ali por tanto tempo e às vezes parece conversar consigo mesma sozinha. Mas é com ele que ela discute se está agindo certo comigo, se eu não sou aluado demais, como vão as minhas notas, como está o penteado dela.

Não queira ver a minha mãe brava, eu digo sempre aos meus colegas. Ela solta vento pelas orelhas e enrola o nariz para cima como uma tromba de um animal extinto. Como os dessas enciclopédias que eu carrego para a cama e me fazem atravessar a noite assim, em outros mundos e coisas que eu não sei.

Às vezes um atrevido tentou lhe oferecer coisas, versos, flores e esses requintes dos quais ela sempre foi despida por natureza. A minha mãe não é disso. Prefere desencardir a casa do que desfrutar-se na varanda. Seus dedos duros desamassam o pão que nós comemos e eu gosto de ajudá-la nisso, em fazer tranças doces e rebocadas de farelos, açúcar cristal e recheadas de não-sei-quê, um doce que é nada e que é tudo ao mesmo tempo.

Dias de vento do inverno ou noites de tempestade parece que, por magia, nunca nos acontecem. Os temporais que destroem casas, fazendas e destelham igrejas e prefeituras não tocam em Santa Bárbara desde o dia em que ela nasceu. Mas, se alguém grita a nossa porta “dona Bárbara!”, ela já está de chave na mão e uma sacola que eu sei só por alto o nome dos chás que ela carrega, pois também ajudo na colheita. Só por coisa muito séria é que veem a minha mãe na rua e já houve, por isso, quem achasse que eu vivesse sozinho, ou com fantasmas. Bobagem.

Mas por isso nunca lhe incomodaram e porque sabem que nos seus olhos o mundo é eternamente sereno, como se ela soubesse de tudo antes e nos confortasse por mistérios, charadas e adivinhos dos seus livros. E, agora que ela esta velhinha de não poder mais, dos meus.

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