Lembranças à Inocência

De inocente a Inocência nunca teve é nada, mas isso mesmo é que a tornava simpática e insuspeita, porque se mostrava como era e não se escondia em falsos pudores. Tinha ela o hábito de me dizer coisas absurdas e desajuizadas na frente de todo o mundo sempre que eu aparecia na confeitaria e ela estava tirando a folga da proprietária. Embora a dona Jurema levasse o lugar nos maiores cuidados e possíveis requintes para uma cidadezinha como Santa Bárbara, a Inocência era a única das funcionárias a quem ela confiava (talvez pelo seu nome) o caixa do lugar. Uma pessoa com um nome desses, eu pensava que ela pensasse isso, não teria ardis de furtar e, de mais a mais, a Inocência para ela era a filha que nunca teve, a dona Jurema, e a quem secretamente planejava deixar a confeitaria quando morresse.

A pergunta nunca variava, mas, mesmo assim, a minha reação era sempre a mesma. Eu começava a sentir a planta dos pés ardendo dentro dos sapatos ao mesmo tempo em que ela torrava o café moído para que eu o levasse a tempo do café da tarde da mãe e suas visitas. Naqueles mormaços de após o meio-dia, nunca tinha muita gente na confeitaria. Os fregueses mais habituais, que vinham para bebericar um café ou licores e folhear os jornais da capital que só chegavam perto do meio-dia, nem se importavam de ouvir as impudências dela. Acho que se divertiam mais é em ver o quão parecendo-me a um pimentão eu ficava quando ela insistia em saber, afinal, o que eu tinha mesmo no meio das pernas. Mesmo que sempre fosse a mesma pergunta, eu não conseguia nunca lhe responder que fossem os meus joelhos e ela espremia os olhos de tanto rir-se da minha vergonha indissimulável.

Algumas vezes cheguei a sonhar que responderia corretamente logo que ela perguntasse, mas, na prática, nunca consegui ser tão eficiente quanto nos sonhos. Na vida real, que guarda uma distância imensa da imaginada, as palavras embaralhavam-se na minha boca e eu parecia sempre que tinha engasgado com elas e por essa razão eu me sentia como um peixe.

Em casa, ninguém sabia que eu passava essas vergonhas por causa da Inocência. A mãe inclusive parece que tinha sido sua professora dos tempos que lecionava e tinha por ela muita consideração e sempre que me pedia algo da confeitaria dizia para mandar lembranças à Inocência, sempre esquecidas. É que diante dela e seus dentes de marfim eu sempre ficava sem palavras, como estupefato pela forma engraçada dela ser.

Nos lugares onde se conversa demais, como as confeitarias, bancos de praça e passeios na avenida, havia gente que dizia que a Inocência andava comendo tantos doces quantos fazia. Isso estaria deixando-a cada vez mais imensa e gritona, porque suas bochechas estavam tão grandes que pareciam uma câmara de ressonância e então a sua voz evoluiria como se a de uma corneta para um trombone ou tuba. Decerto os demais clientes da confeitaria abandonariam o lugar porque seria impossível ler os jornais com a sua gritaria. Eu apenas precisava controlar meu pânico dela me perguntar em altos brados a sua repetitiva pergunta e isso fosse escutado até do outro lado da rua, quem sabe nas ruas perpendiculares ou até mesmo fora dos limites de Santa Bárbara, com sua voz de trovoada e o riso demente.

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