Dona Erradinha

Há três ou quatro dias a minha primeira preocupação matinal tem sido com uma pequena ladybug. Na pequena sacada aqui de casa, quando abro as persianas para que as lamparinas do dia joguem claridade para dentro, a primeira coisa que procuro não é confirmar se o céu definitivamente desabou, se os desalojados pernoitaram ou partiram em busca de outra platibanda ou se a primavera deu uma mata-leão no inverno e retomou seu curso. A primeira coisa que procuro é uma pequena joaninha, mas pequena mesmo, tanto que foi preciso resgatar uma lupa para ter certeza de que se tratava de um ser vivo e não uma gota rubra contra o piso de pedras da varandinha.

No primeiro dia em que a vimos, andou quase nada o dia inteiro e nos preocupamos se uma corruíra ou um bem-te-vi minguado não fosse adentrar a tela de proteção e bicá-la, comê-la, erradicá-la do mundo.

“Dona Erradinha andou dois centímetros!”, ontem minha filha veio avisar, porque acordou ainda mais cedo do que eu para verificá-la primeiro, antes de que esboçasse levantar-me.

“Dona Erradinha” foi como a batizamos, brincando com a polissemia da expressão em inglês “bug”, que serve tanto para inseto quanto para “erro”, “falha”, principalmente no universo da tecnologia. Pareceu um bom nome porque no inverno recalcitrante ela parecia totalmente errada na sua cor vibrante, na sua existência minúscula. Em dias que deveriam ser cinza sempre, cinza continuado, Dona Erradinha nos mostrava que mesmo andando em passos pequenos, imperceptíveis, podia-se crescer e viver sem que ninguém desse por isso – salvo os de lupa.

“Andou mais um pouquinho agora e abriu as asinhas”, relatou ainda a minha companheira entomologista, vibrando porque às vezes duvidávamos de que vivia e não ousávamos tocá-la para ter completa certeza, por qualquer risco do gesto.

Há três ou quatro dias tenho acordado pensando nela e me esqueço de todo o resto que segue acontecendo apesar da minha ignorância. Mas me acompanha sempre, claro, o temor de que possa simplesmente sumir da noite para o dia. Cheguei a esquecer de acompanhar nessa obsessão o trajeto claudicante de mais um morador de rua carregado o mundo sobre rodas, indo e voltando no anonimato da cidade esvaziada da pandemia, e que veio abrigar-se nas redondezas.

Deitado ainda, busco forças para acordar antes da minha concorrente, mas em vão. Ao ouvir o rumor de um temporal aproximando-se sob o chumbo de nuvens recém amontoadas, ela ergueu-se e, silenciosamente, havia já feito a primeira e definitiva inspeção.

“Dona Erradinha se foi…”, avisou encostada ao batente da porta e o céu parecia desabar em seus olhos incrédulos. Que vida essa! É preciso aceitar que dure tão pouco, é preciso abraçar as tempestades, mesmo ao custo de sucumbir a elas. Não nos dissemos isso, claro que não, mas a paisagem abandonada da sacadinha (e da marquise) falava por si só.  Provavelmente foi um fotógrafo que inventou a máxima de que uma imagem vale por mil palavras. Mas, olhando a paisagem agora, a externa e a interna, e apesar de que precise delas mais do que nunca, não me ocorre nenhuma. Às vezes uma imagem tira é mil palavras. Ou até mais que mil.

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