Cão vadio

Quando desviaram o trem de Santa Bárbara, quase que a cidade acabou. Do dia para a noite, a vida complicou-se sensivelmente. A minha principalmente, que a minha ocupação principal dos domingos era correr na velocidade do trem, como no filme do Super Homem, mas superá-lo a ponto de sobrepor recordes para chegar antes de todos na estação e estufar o peito na plataforma, reconhecido por todos como o campeão insuperável. O campeão indiscutível que corria mais rápido do que o trem e seria capaz, se fosse o caso, de girar o mundo ao contrário se fosse para conquistar dessa maneira a atenção da Valentina.

Eu vi esse movimento desacontecer porque o pai da Valentina trabalhava na estação como telegrafista e fiquei sabendo pela mãe que, com a medida, eles iriam dali de Santa Bárbara para algum outro lugar. Talvez outro estado. Talvez muito mais longe. De qualquer forma, num lugar inacessível e nem que eu corresse ou voasse como um super herói poderia chegar lá, pois a minha mãe não permitiria que eu fosse tão longe.

Essas sertanias antigas não eram como agora, tão estreitas, apertadas. Tudo era grande e não se podia ver onde acabava. Era um pampa que ia adentrando as cidadelas e cruzando fronteiras como faz o riscado das ferrovias até emendar no sertão. Bem como fazem os rastros das boiadas e seus tropeiros, se o tempo não agisse tão depressa em apagá-los.

Eu que pensasse em como fazer sem o trem, portanto, para alcançar o rastro da Valentina. Teria de dar um jeito, nem que fosse escondendo-me numa carga de alguma coisa, num caminhão, no rumo das aves que procuram o calor – como elas a procurar o calor, eu procuraria a Valentina. Ou faria como o Chico Mamangava que fugiu com o circo para ser trapezista e ter vida saltimbanca. Ou morrer. Mas tão cedo…?

A mãe antes teria coisas que me incumbir para fazer. Terminar os estudos. Alistar-me e servir no quartel. E tentar prestar atenção em outras moças, porque ela teria esperança em que houvesse em Santa Bárbara ou pelo menos ali perto quem pudesse recolocar meu coração no lugar de origem. Mas ela sabia o tamanho do buraco que me ficaria no peito? Buraco assim de ver através do corpo e da alma, como um rachado no teto?

Ela não sabia. Ninguém sabia. Mal sabia a Valentina, penso eu.

Seria o caso então de ficar quieto e assistir a partida e arcar com o desterro. Seria o caso de comportar-me não mais como criança nas pitangueiras, nas correrias, nas ilusionices e descompromissos de quem vive mais por imaginar do que por viver efetivamente.

Mas também, se eu partisse, por quanto tempo chorariam os tios, os colegas, os professores? Menos que o carnaval, eu acredito. Por que, então, vou me prender aqui? Se esse lugar vai ser um fim de mundo sem ela e habitado somente por essa sorte de ingratos…?

Santa Bárbara é uma cidade de cicatrizes, portanto haverá de suportar a minha também. É uma cicatriz ela própria, dentro do nada, avizinhando-se à serra do Sem Fim de um lado e, do outro, aos campos de Cima de Tudo. E quem a vai alinhavando são suas pobres criaturas e seus destinos pequenos, amassadiços, e suas nenhumices.

“Vão-se os anéis, ficam os dedos…”, disseram os amigos entendidos. “Pra tudo tem remédio…”, disseram também. Porém não me consolaram; não puderam. No meu caso, iriam os dedos também; na verdade, tudo se iria com a Valentina. Só a tristeza é que vai ficar. E tristeza sem esperança, que é das mais brutas. Em alguns anos eu ajustaria o juízo, a mãe prometeu-me. “Mas com peças estragadas, mãe?”, eu perguntei. E ela, coitada, quis me abraçar, mas eu tornava-me também volátil, vaporoso, de não se poder abraçar ou tocar.

Pela noite, sem que ninguém me visse, eu tocava pela Ponte Seca até onde os trilhos se destrambelhavam e tentava retirar, um por um, aqueles dormentes de ferro. Tinha esperança em que, desse modo, o trem não pudesse fazer sua última viagem. Mas a estação foi aproveitada abrindo-se uma porta pelo lado oposto para, então, criar-se a rodoviária de Santa Bárbara. A Valentina iria de ônibus, não de trem. E eu me cansara a troco de nada.

Entre esse tempo de anúncio e concretização, em casa tomaram-se providências. A mãe trocaria a tevê em preto e branco por outra, colorida. Trocaria o conjunto de crochés e rendilhas de cima dos móveis. A velha frigidaire por uma geladeira nova. Tudo pra me consolar, mas nada me entreteria. Nada consolaria. E até o ano escolar andaria ameaçado com meu súbito desleixo. Na aulas de Geografia, imaginaria a Valentina vivendo do Paraná para cima, dali ao Mato Grosso, e além, mais para cima, até onde a vida a levasse, que ela leva mais que o trem, mais que o ônibus, mais que tudo e, pelo que eu pude saber, nem a Valentina mesmo sabia aonde estava indo morar.

No dia de sua partida, fiz o que pude. Tomei do escapulário, presente da vó Julieta pra eucaristia ainda nem feita, de um retrato da mãe e do pai enquanto ele vivia e secretamente me despedi de todo mundo (até da coleção de gibis). Quase tudo em segredo completo. Apenas comentei por alto dos meus planos com o João Marcelo, pois sabia que ele não entenderia direito o que eu faria e, principalmente, porque faria. Se eu tivesse de ter aprendido alguma coisa na vida, estava aprendido. Agora era minha hora e última chance de provar a Valentina que eu a merecia e, se fosse o caso, de segui-la.

Antes da chuva habitual da tarde – em Santa Bárbara toda a tardinha chovia para o refresco dos calores acumulados – tomei da minha bicicleta e dei com o imenso ônibus deixando a estação rumo a qualquer lugar. Eu não entendia como, mas havia me atrasado a ponto de nunca ter dito à Valentina o quanto a amaria para sempre. E, pelos atalhos da antiga ferrovia, por trás das ruelas do fundo do cemitério e seus ciprestes, pedalando como um louco, consegui chegar à ponte que limitava Santa Bárbara de Quadrantina antes do ônibus que a levava embora dali para sempre.

Como se tentasse a sorte do Super Homem, eu pedalava tão forte que atingira a velocidade necessária para emparelhar-me à sua janela no ônibus. Com seus olhos cor de amêndoa, a Valentina sorria e chorava, mas também não tinha o que pudesse fazer para evitar que o pai e a mãe decidissem por ela o seu destino. Não naquela idade.

Eu ensaiei gritar, mas, correndo como um louco, não havia maneira. Bastava-me olhar para ela os instantes que eu ainda pudesse e que minhas pernas ainda suportassem pedalar. De repente, eu noto que ela tapou a boca como se diante de um susto, mas só percebi do que se tratava quando trombei com duas crianças que por ali empinavam suas pandorgas e estatelei-me no chão de corpo inteiro, derrubando-as comigo.

No chão, e dolorido, vi o ônibus partindo no meio da poeira da estrada de terra. E do meu lado, dois meninos que eu nunca tinha visto antes choravam ao ver as pandorgas subindo ao sem fim, levadas pela ventania de outubro, quase Finados. Porque choravam e eu precisava consolá-los de alguma maneira, prometi-lhes fazer novas ou ajudar pelo menos, que eu ainda não tinha toda a técnica. Eles aos poucos acalmaram-se, principalmente porque realmente os acompanhei e até deixei que alternassem na minha bicicleta, puxados por mim.

No caminho da sua casa, uma casinha de madeira das mais modestas bem quase na saída da cidade, nem uma vez voltei os olhos para trás e nem mais imaginei para onde o ônibus pudesse ter ido. Sentia dentro do peito um vazio e na garganta um aperto, mas tinha certeza de que ela não me quereria ver sofrendo, então não chorei. Ela tinha meu endereço e eu a promessa das suas cartas. Ela tinha um fotografia e eu uma mecha do seu cabelo. Ela tinha certeza que logo nos veríamos e eu tinha recém aprendido a mentir, dizendo “eu sei…”.

Com a cidade já quase acendendo as luzes e os vagalumes piscando na relva como lampadinhas irrequietas, voltei à casa da mãe depois de deixar em casa o Miguel e seu irmão João, e de prometer-lhes de pés juntos voltar no outro dia para ajudá-los. Imaginei que a mãe estaria na porta de casa, preocupada sem saber de mim, mas ela não estava.

Ao finalmente chegar, sentei-me na soleira e fiquei observando anoitecer sentindo o perfume da cozinha de casa, mas não tinha fome alguma. Sentia um desconsolo vago, a sensação de não entender mais coisa nenhuma. A mãe vendo-me ali quase perguntou alguma coisa, mas parou a meio caminho de dizer e sentou-se em silêncio ao meu lado. Um dos cães da rua viu-nos e veio lamber minhas mãos. Ele tinha a patinha machucada, uma mordida de outro bicho talvez, e ainda assim parecia ter vindo ao meu consolo, não buscar pela minha ajuda, e dizer-me do seu jeito sem palavras que agora eu era um igual a ele, e que era era bem vindo ao mundo dos cães vadios.

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